Cidade Invisível é bem brasileira e é disso que precisamos

Marcos Pitta

Cidade Invisível, a nova série brasileira da Netflix estreou em 5 de fevereiro com nomes conhecidos do público como Marco Pigossi, Alessandra Negrini e diversos personagens mitológicos do nosso Folclore. Ao acompanhar os episódios você descobre quem é o Saci, o Boto Rosa, a Cuca, o Curupira, a Iara, entre outros e tudo isso pode parecer fantasioso demais, só que a proposta da série parece seguir um outro caminho além da fantasia. 

A premissa é que após uma perda familiar, um detetive começa a investigar a morte da esposa e se depara com enigmas e circunstâncias “fora do comum”, a partir daí, acaba se envolvendo em um jogo de criaturas que, até então, só existiam nos livros e na memória de quem conhece o Folclore. 

O roteiro é muito bem amarrado, tem bons diálogos, bem brasileiros, afinal estamos falando de uma série produzida e criada por brasileiros, então por qual razão os diálogos precisam estar referenciados pelas séries americanas?

Nas redes sociais, alguns comentários surgiram à respeito de uma fala: “Agora eu não posso, hoje tem jogo do Flamengo”. Bom, vamos lá: essa situação acontece quando o personagem de Pigossi chega até uma mulher que trabalha na perícia e quer entregar a ela um Boto Cor-de Rosa que apareceu morto em plena praia do Rio de Janeiro, mas acontece que ele chega tarde e a mulher já fechou o local, está indo embora. 

Como boa carioca, fica evidenciado que ela torce para o Flamengo e era dia de jogo, o que um torcedor fanático diria quando está atrasado para ver seu futebol e alguém lhe pede um favor? ‘Hoje tem jogo do Flamengo’. 

Pronto. É o que aconteceria se você cruzasse com um carioca em dia de partida e pedisse a ele um favor. Foi este o retrato da série que causou ‘vergonha alheia’ em alguns internautas que nem sequer deram uma chance para os episódios. Triste. Mas essa também é uma realidade brasileira, a desvalorização do seu próprio produto. 

Isso fica perceptível em algumas atuações que, por muitas vezes, parece ‘robotizada demais’ a ponto de tentar convencer quem vai assistir a série lá fora. Mas não é apenas para agradar o mercado internacional que as séries brasileiras, quando se trata de Netflix, apresentam esse contexto de atuação ‘forçado’ para tentar chegar perto do que é feito em produções americanas, por exemplo. Isso também acontece para tentar agradar o público que também está ‘influenciado’, por esse tipo de atuação, não consome produção brasileira e, por isso, tende a achar que quando é feito aqui não é bom. 

Quem entende percebe essa influência, o público no geral, nem tanto. Isso quando a série recebe uma chance de ser apreciada. 

Fora isso, Cidade Invisível apresenta outros benefícios e tem sim ótimas atuações, elenco bem engrenado com a direção, fotografia no tom certo que desperta a curiosidade e o mistério, efeitos especiais muito bem feitos e ganchos que vão aguçar a vontade de maratonar os sete episódios de uma só vez. 

Como ponto quase negativo cito Alessandra Negrini, sem questionar o seu talento em hipótese alguma. A atriz está bem no papel, mas parece um pouco fechada, sempre num tom que, particularmente, poderia estar maior (talvez mais uma influência da ‘mecanização’ citada anteriormente). A presença dela engrandece cada cena, o tom que ela dá para as falas remete o que o momento pede, mas poderia ser menos ‘ensaiado’, talvez. 

Nessa contrapartida está Marco Pigossi e até Fábio Lago que se entregam mesmo, em todas as cenas, com muita adrenalina e não deixam parecer exagerado. A pequena Manu Dieguez, interpreta Luna, a filha do protagonista e sua atuação pode ser considerada acima da média, é raro ver crianças com tanta entrega.

No mais, Cidade Invisível merece atenção, precisa de uma segunda temporada, pois tem história para isso e o Folclore pode e deve ser muito melhor explorado em mais capítulos, a nossa cultura precisa ver referências como essa e muitos outros personagens podem entrar na história. 

Só para não perder o time, aqui na ComTempo já foi feita uma série de reportagens sobre o Folclore Brasileiro, entrevistamos um especialista em Saci e uma jornalista que viajou muito para apresentar personagens que toda uma geração cresceu sem ouvir suas histórias e que são tão interessantes quanto às famosas lendas da mula sem cabeça e do Lobisomem. Vale a pena conferir todos os episódios clicando aqui.
Abaixo, você pode escolher e clicar diretamente no episódio que quiser acompanhar.

Carlos Saldanha se arriscou bonito em Cidade Invisível, sua primeira experiência live-action e a Netflix cada vez mais melhora o seu repertório brasileiro. Vale ressaltar aqui obras muito bem feitas como as mais recentes ‘Coisa Mais Linda’ e ‘Bom Dia, Verônica’. 

Episódio 1 -> Folclore Brasileiro: a luta para mantê-lo vivo
Episódio 2 -> O Folclore vivo nas HQs
Episódio 3 -> Como a lenda e a tecnologia se completam?
Episódio 4 -> O Folclore Brasileiro renasce na internet
Episódio 5 -> As lendas folclóricas que você ainda não leu
Episódio 6 ->A jornalista que faz viver a nossa história

Deixe uma resposta