Episodio 6: A jornalista que faz viver a nossa história

José Piutti

Jornalista, Mestre em comunicação social e escritora com mais de 40 livros publicados. Essa é Januária Alves, autora do livro que inspirou a postagem sobre criaturas desconhecidas do folclore brasileiro, tema do episódio anterior no Especial elaborado pela ComTempo. Agora, no nosso último episódio, ela é quem assume o papel de protagonista e nos conta sobre como surgiu sua relação com as histórias de nossos ancestrais e fala da importância em mantê-las vivas.

O livro ‘Abecedário de personagens do folclore brasileiro’ foi lançado em 2017, pelas editoras FDT e Sesc Edições. Porém, Januária costuma dizer que suas pesquisas começaram ainda na infância. “Quando as pessoas me perguntam onde comecei a minha pesquisa, costumo dizer que foi quando nasci, porque na verdade eu nasci rodeadas dessas lendas.”

Natural de São Paulo, Januária mudou-se para o Pernambuco aos 7 anos onde ficou até os 21. O Local, rico em cultura, proporcionou a esta jornalista, o contato direto com histórias e tradições.  “Cresci em um ambiente que circulavam muitas histórias. O povo nordestino, pernambucano, valoriza muito suas tradições. Cresci ouvindo literatura de cordel, muitas histórias do bicho papão, papa figo, mula sem cabeça…”, conta.

Durante a entrevista para a ComTempo, a autora conta que a primeira lenda de que se lembra de ter ouvido é a do Sací-Pererê, que é, também, a mais marcante de sua vida. “Lembro-me de ter sentido medo e curiosidade. Minha mãe me contava e dizia: Vê! Vê! O Sací está alí, em cima daquela árvore! Ninguém sabe se ele é bom ou mal, é traquina, esperto. Me marcou.”

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Januária Alves orgulha-se do presente que deixou para a sociedade como forma de preservar a história de cada um de nós. (Foto: Arquivo pessoal de Januária Alves).

O livro

Quando Januária recebeu o convite para escrever o famoso abecedário, passou cerca de três anos coletando informações, checando dados e trocando experiências com fontes conhecidas, como Câmara Cascudo, um dos pesquisadores de cultura popular mais conhecido do país. Como resultado, deu à luz a 141 personagens mitológicos brasileiros, onde cada um é apresentado em forma de verbete ilustrado, com descrição de suas características físicas e psicológicas, origem e as narrativas em que aparece.

Num artigo escrito pela autora e publicado no Suplemento Pernambuco, em outubro de 2017, a jornalista explica a motivação que teve durante os anos de pesquisa. “Foi a experiência e a emoção que cada narrativa dessas provoca por onde quer que passe que me deu a certeza de que essas histórias, presentes nas raízes das nossas árvores, nas águas dos nossos rios, nos ventos afoitos que cortam nossos campos e na dura seca do sertão, estavam prontas, jorrando em abundância, só a espera de quem se dispusesse a contá-las.”

Ainda no mesmo artigo, Januária discorre sobre mudanças notadas por mães que introduziram o folclore no dia a dia dos filhos. “O filho de uma amiga agora só dorme depois que ela lê um verbete do livro. Isso porque tem sonhado com esses seres todas as noites, embarcando em aventuras divertidas e interessantes. Uma mãe me conta que trocou a leitura de algumas dessas lendas por uma hora de videogame e depois do terceiro dia, ao invés de reclamações chorosas pela “troca injusta”, houve pedidos para “mais uma história”.

Para a autora, levar o conhecimento de nossos antepassados às novas gerações, fará com que elas se tornem mais empáticas, compassivas a capazes de compreender o que nos iguala e diferencia. “Em tempos de intolerância tais características são imprescindíveis para se formar cidadãos capazes de produzir transformações importantes na nossa sociedade.”

Preservar

Em meio a ‘era Marvel’, Januária nos mostra que a melhor maneira de preservar raízes da cultura brasileira é seguir contando-as, assim como fazem todos os protagonistas apresentados nesta série, que lutam diariamente pela preservação do passado, seja escrevendo livros, gravando podcasts, produzindo HQ’s, levando palestras às crianças dentro das escolas ou promovendo debates online.

Ao olhar para obra produzida, a autora sente-se feliz e espera que ela “seja um elemento para manter viva essa cultura.” Seu desejo pro futuro, é que “essas histórias continuem passando de boca em boca, crescendo, e nos contando quem realmente a gente é, porque o folclore vem nos contando quem somos quanto povo, identidade e isso não pode se perder”, finaliza.

“Acredito que a melhor maneira é seguir contando essas histórias e não deixando que elas sejam substituídas pelos super-heróis, pela globalização e que a gente continue valorizando o que é nosso, porque o folclore é o nosso maior patrimônio imaterial. Então, fico muito feliz com meu livro e com a coleção que a gente desenvolveu. Que elas sejam um elemento, um instrumento justamente pra manter viva essa cultura”, declara a jornalista.

Januária colabora com a preservação desta cultura de duas maneiras importantes: a primeira, como pessoa que tem consciência da importância em se cultivar e regar todos os dias a preservação da memória. A segunda, como jornalista que entende sua função de contar histórias e fazer com que elas sejam lidas, perpetuando assim o conhecimento mútuo e deixando um registro daquilo que um dia poderia ser esquecido pela nova geração. É com atitudes como as de Januária, Júnior Salvador, Olida Lange, Anderson Awwas, Andrioli Costa e Eberton Ferreira, que a ComTempo orgulha-se em encerrar a primeira temporada desta série de reportagens sobre o folclore brasileiro como mais uma tentativa, certamente viável, de preservar a cultura desta história.

Escrito por: José Piutti
Edição de texto: Marcos Pitta

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