Precisamos falar sobre inclusão escolar

Escrito Por: Sério Fraga

Em 2015, foi instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais, visando a inclusão social e cidadania.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), de 2016, entre mais de 11 milhões de pessoas matriculadas em alguma instituição de ensino superior, apenas 0,5% possuía algum tipo de deficiência, o que corresponderia a 51.685 estudantes.

Jéssica Mendes, 28, faz parte desta estatística. Formada em Fotografia pelo Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), ela tem a trissomia do cromossomo 21, a Síndrome de Down.

“Comecei a gostar de fotografar na adolescência, mas só desenvolvi esse hobby no ensino superior. Antes, eu estava muito confusa, na época eu tinha psicóloga e ela me indicou fazer orientação vocacional. Consegui passar na prova prática para Artes Cênicas, na Universidade de Brasília (UnB) e em outros três vestibulares, nas instituições Centro Universitário Euro Americano (Unieuro), Faculdade Alvorada e na IESB, para o curso de Fotografia”, comenta a profissional.

Com um livro publicado, “Asas e Flores”, que traz fotos produzidas por ela, Jéssica conta sobre a importância da sua profissão. “Pra mim, é a possibilidade de registrar fatos, a realidade e também de impactar as pessoas com a beleza da natureza. Quero fazer a diferença com as minhas fotografias e sou feliz com o trabalho que escolhi”.

Jéssica Mendes, fotógrafa:  “Desejo que todos os jovens e adultos possam exercer seus direitos e ser incluídos na sociedade. Nunca desista dos seus sonhos! Educação, trabalho e independência são direitos assegurados a todas as pessoas”. Foto: Arquivo Pessoal.

Hoje, Jéssica é uma profissional de sucesso, porém, ela teve algumas dificuldades na educação básica e no ensino superior. A fotógrafa sempre estudou em escola regular, no começo da vida escolar foi em uma instituição pública, mas depois se transferiu para uma particular.

“Foi muito difícil dar conta de tudo o que era passado, aprender conteúdos complexos, como matemática, física, química e outros. Na época não tinha a garantia da lei para o apoio em sala de aula, então, a minha família contratou uma professora que auxiliava todos os alunos, pois minha mãe não queria que eu tivesse um tratamento diferenciado”, explica.

“Além disso, muitas vezes sofri preconceito. Tive que superar situações, conquistar amigos, mostrar para os professores o meu potencial. Para mim, a inserção no meio acadêmico a todo o momento foi um desafio, mas sempre consegui vencer as dificuldades do dia a dia”, acrescenta a fotógrafa. 

“Neste livro, temos fotos que eu produzi em lugares diferentes, como Brasília-DF e Montevidéu, no Uruguai. Tem uma paleta de cores incríveis e imagens de aves, insetos e flores”. Foto: Arquivo Pessoal.

A inclusão escolar foi algo muito significativo para ela. “Além das matérias, eu adquiri muito conhecimento com os professores e com os meus amigos, que me apoiaram e ajudaram. Aprendi ao longo da minha história a estudar, e isso me ajudou a entrar na faculdade e no mercado de trabalho”, afirma Jéssica. 

Ingressando no ensino superior, os impasses persistiram. “Foi muito difícil do início ao fim. Tive problemas para me adaptar com as matérias e com a quantidade de trabalhos. Em tudo tive muito apoio da minha família, para que eu aprendesse os conteúdos. Alguns professores me ajudaram e outros não”, comenta a fotógrafa. 

E sobre a discriminação, ela afirma que sofreu novamente. “Algumas pessoas me rejeitaram, fui excluída de um trabalho em grupo apenas por causa da deficiência. Como foi muito grave, minha mãe entrou em contato com um dos professores, para que ele fizesse um trabalho de conscientização com a turma, e também participei de reuniões para tratar do assunto. Acabamos resolvendo toda a situação e aprendi a enfrentar esses desafios. Isso me deu forças para seguir em frente”.

Como esse assunto é tratado hoje, nas escolas?

A Revista ComTempo conversou com uma supervisora, que atua há 5 anos na rede pública, em Santa Luzia-MG, que prefere não se identificar. Ela acredita que “o maior ganho que uma criança tem com a inclusão escolar é a interação com os demais alunos. Amplia suas referências, consegue interagir com diversas pessoas, passa a conhecer novas realidades. O convívio com pensamentos diferentes, limitações e referências é fundamental na formação de qualquer cidadão. Sentir-se integrado e parte de uma comunidade com certeza muda a visão de mundo”.

A supervisora comenta que, no momento, a escola onde trabalha não possui nenhum aluno com a trissomia do cromossomo 21, mas existem estudantes com outros tipos de deficiência, como cadeirantes e autistas. E acrescenta que sente falta do apoio do Governo: “O que eles fazem é cumprir a lei do direito da escola regular, contudo, falta uma formação para os profissionais e suporte especializado para cada escola”.

“Necessitamos de mais preparo pedagógico, como cursos de instrução, apoio especializado em cada instituição, com psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, entre outros. E de material de apoio para atender as necessidades especiais”, pontua a profissional.

A supervisora destaca que sua escola não possui um projeto próprio para inclusão, no entanto, existem muitos trabalhos realizados em parceria. “Estes projetos estão focados em ajudar as crianças a superar qualquer obstáculo, e tem como objetivo alcançar as metas traçadas no plano de intervenção do estudante. Pois, elas demandam um trabalho específico, de acordo com sua precisão”.

Já o contato da escola com os pais é de extrema importância. “Vemos que o trabalho só funciona quando temos uma mesma linha de pensamento, uma relação de apoio. A ajuda que concedemos à família da criança é um atendimento extra turno na sala de recurso multifuncional. Possuímos também, na nossa rede, um centro de atendimento com profissionais específicos para cada necessidade e os pais têm um espaço para o agendamento de reuniões. Contudo, infelizmente, nesse centro há poucos especialistas para tanta demanda de auxílio”, conclui a profissional.

Uma assistência que vai além do Estado

O Instituto Rodrigo Mendes (IRM) é uma organização sem fins lucrativos que tem como missão colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum. Seus projetos estão organizados a partir de uma arquitetura de programas baseada em três pilares: formação, boas práticas e advocacy.

Lailla Micas é jornalista, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), trabalha no IRM há 5 anos e coordena o DIVERSA. “O projeto foi criado em 2011 pelo Instituto, com o apoio do Ministério da Educação e outras organizações comprometidas com a equidade. É uma iniciativa do pilar de boas práticas e tem como principal objetivo atuar como uma fonte de referências sobre técnicas de educação inclusiva para professores, diretores de escolas, equipes e secretarias de ensino, além dos familiares de estudantes com deficiência”, explica.

O DIVERSA já recebeu mais de 3,7 milhões de visitantes de mais de 115 países. “O portal produz, reúne e compartilha notícias, artigos de especialistas, relatos de educadores, materiais pedagógicos acessíveis e estudos de caso sobre experiências exitosas em todas as regiões do Brasil, em diferentes níveis de ensino, e também em outros países, como Estados Unidos, França, Dinamarca e Argentina”, afirma a jornalista.

Lailla Micas, coordenadora do projeto Diversa: “O principal objetivo do DIVERSA é ser um portal que sirva de fonte de referência sobre conteúdo relevante e confiável a respeito da educação inclusiva, mas principalmente em relação às experiências reais de inclusão escolar”.  Foto: Arquivo Pessoal.

E, para concluir, a coordenadora Lailla Micas apresenta dois projetos do Instituto Rodrigues Mendes. O primeiro “é uma seção nova do portal, criada em 2020, a DIVERSA na pandemia, que traz conteúdos sobre educação inclusiva durante a implementação de estratégias de contenção da Covid-19 em todo o mundo”.

E o segundo, “é o Portas abertas para inclusão – educação física inclusiva EAD, totalmente gratuito e online, composto por textos e videoaulas sobre a teoria e a prática da educação inclusiva. Além da educação física, o curso, que já teve mais de 100 mil inscritos, aborda diversos temas da inclusão escolar no Brasil. Por isso, pode ser realizado por professores de todas as disciplinas, gestores escolares, familiares e demais interessados ao tema”.

*Esta matéria foi produzida no início de setembro de 2020, antes do decreto 10.502 sobre a nova Política Nacional de Educação Especial (PNEE), sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 1° de outubro.

A nova PNEE substitui a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de 2008, que tinha como objetivo assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência. O novo decreto permite que esses estudantes frequentam salas e escolas especiais. 

Deixe uma resposta