Poderia ser mentira

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Por: Caio Barroso

Olá! Meu nome é Patrick Gonçalves da Silva. Quis começar essa carta assim só para mostrar como meus pais me avacalharam na hora de escolher o meu nome. Segundo eles, tinha um ator de um filme de faroeste que meu avô gostava e aí tacaram esse nome em mim. Bem clichê, mas dizem que a história é essa mesma.

Como se não bastasse a complexidade da língua portuguesa, quiseram me americanizar. E não funcionou tanto. Para a frustração deles, ninguém me chama com a pronúncia certa: da porta da minha casa até a escola, da escola até nas chapadas, em qualquer lugar eu sou ‘Patrique’.

Mas não vim falar do meu nome nem sua etimologia e prosódia. É abril, os ventos do outono batem na minha janela trazendo as folhas das árvores que circulam a minha casa aqui no pequeno sítio que a gente mora e, junto delas, o frescor dos eucaliptos que meu avô plantou há mais de 15 anos.

Lá fora, no terreiro, as brasas da fogueira que acendemos na última noite queimam e apagam na mesma velocidade que o joão-de-barro constrói sua casa, tão rápido quanto os dias passam e o inverno se aproxima.

Acho que, pela primeira vez, sinto que o nosso país está caminhando e as pessoas se sentindo realizadas, produtivas e satisfeitas com os rumos que o governo está nos conduzindo. Meu pai e os amigos de meu pai dizem que nunca estiveram tão bem.

E lá na cidade, as pessoas estão felizes com a chegada das festas que fazemos nos últimos dias de Páscoa. Dá pra ver ao andar na rua o ar de renovação e como os olhares estão doces, serenos, e toda a empolgação para seguir a nossa tradição de décadas de reunir, refletir e comemorar.

A cidade está agitada e iluminada.

Nossa comunidade aqui na roça não cabe de gente, porque todas as famílias que vão pra longe trabalhar, voltam nessa época do ano para participarem das comemorações.

Eu choro só de imaginar como esses dias são tão especiais. Choro, pois nada do que escrevi é verdade.

Não me chamo Patrick. Inventei esse nome, já que nos últimos tempos tem sido perigoso falar, então estou tentando manter meu anonimato. Criei uma história só para envolver mais.

Nem o sítio, nem as árvores são verdade também, porque uns fazendeiros com dinheiro e poder conseguiram tirar a gente de onde morávamos, e praticamente não existe brisa fresca aqui, já que é uma casa tão colada na outra.

E nem preciso falar do joão-de-barro. Coitado! Nem sei se existe.

Todos estão recolhidos em casa, isolados, sem poder sair, tristes por não poder fazer o que fazíamos todo ano levando em frente a tradição da nossa cidade.

Está tudo apagado e triste.

E nem as famílias que moram longe puderam vir. Tomadas pela doença, soube até que algumas delas deixaram de existir.

É um primeiro de abril que eu gostaria muito que tudo fosse uma mentira de verdade, e que eu não estivesse escrevendo da cama de um hospital sem saber o dia que eu vou sair.

De forma triste, a principal homenagem do dia não é a mentira saudável desta data que todos fazem e brincam todos os anos. Hoje vêm na minha memória as mentiras contadas pelo presidente, que nos trouxeram até o ponto em que estamos. Ludibriou, enganou, falseou muita informação e prolongou o nosso sofrimento.

Não é mentira o que estamos vivendo.

E aqui de onde estou me recuperando, entre tantas aparelhagens, espero que a verdade volte a imperar, e ano que vem a mentira seja só brincadeira de novo.

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