Festa estranha com gente esquisita – Parte 1

Hulking e Wiccano jamais imaginaram que teriam de combater o pior inimigo de todos os tempos: a discriminação!

Por: César Belardi

Cada um de nós tem sua própria régua, e costumamos medir tudo – e todos – à nossa volta a partir dela. São nossos valores, nossas referências e, muitas vezes, nossas próprias verdades, a maneira como vemos o mundo que nos cerca e o colocamos em duas caixas distintas: “certo” e “errado”. Parece ser um senso bastante raso, porém, predomina.

Nada de novo, até aqui. O problema real começa quando determinamos que essas caixas não tem mais as aspas e passam a ser aplicadas à totalidade que nos cerca, próxima ou distante, indiscriminadamente, e apontamos como juízes de um passado não tão remoto a condenar sob leis que apenas nós chancelamos.

Quem quiser ser bem quisto por mim, que siga minhas leis, caso contrário, estará fadado à crítica pública, por meio de atos que acentuarão quão impróprio, aberração, você é, para fazer parte do “meu mundo perfeito”!

Agora, considerem, sem maiores preocupações: o que descrevi é patético, para ser educado! Beira o ridículo, chegando às raias da imoralidade e, por vezes, da total falta de ética, um crime contra a identidade e o respeito ao outro. Infelizmente, atos patéticos, quando perpetrados por indivíduos cuja única referência de mundo é um espelho fosco, não são totalmente inofensivos. A falta de limites, por se colocarem como o ápice da evolução humana e social sem sequer compreender o conceito correto do termo, é a autojustificativa usada para buscar reconhecimento e apoio em outros que compartilhem do mesmo espelho.

Racismo, discriminação, discursos de ódio, atos de agressão física e moral, segregacionismo, e mais uma vexaminosa infinidade de ações contra o outro – por ser, de alguma forma, diferente daquele reflexo fosco – não são atitudes patéticas. As vidas das pessoas, que são alvo de tais obscenidades, são prejudicadas, destruídas e, até mesmo, extintas, como temos visto com tanta frequência nos últimos tempos.

Os ambientes para tais demonstrações de “superioridade” são, desde as salas de aulas até os eventos esportivos, passando por locais públicos, trabalho, lazer e, no limite do inaceitável, no colo da própria família. Redes sociais são Terra de Ninguém para essas expressões, por maior que sejam os esforços para inibir essas práticas.

Tenho ensaiado estes pensamentos desde um evento ocorrido na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2019. Naquele momento, o que ocorreu, protagonizado pelo então prefeito daquela cidade, foi a minha gota d’água no que diz respeito às expressões da ignorância e de todas as fobias que podem ser descritas em um dicionário. Muito já havia visto, mas a preocupação fanática – justificada, novamente pelo outro, desta vez, a religião e a pureza das crianças – com uma história em quadrinhos mexeu forte com meu senso de limites. Esperava que o mesmo não fosse acontecer, com o mesmo protagonismo, em relação não só a sexualidade (que deve ser um assunto muito obscuro para algumas dessas pessoas), mas contra a cor da pele da pessoa, sua fé, sua idade, sua ideologia… sua percepção de como preservar a própria saúde e a de outros tantos pelo simples uso de uma máscara durante uma pandemia, ou a tentativa de exercer sua atividade profissional e passar por ofensas verbais descabidas, ou justificar-se – mais uma vez – pelo outro que precisa ser protegido. Desprezar suas expressões artísticas e a ciência.

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