A incompatibilidade de reconhecimento entre homens e mulheres na indústria cinematográfica

Escrito por: Marcella Montanari

Todos os anos a Academia do Oscar se torna pauta de críticas por parte do público, e não por menos. A supremacia masculina branca é predominante e quando abre espaço para mulheres, estrangeiros e pessoas negras, o número é altamente desproporcional aos demais.

O número de indicações das mulheres teve aumento no Oscar 2020, mas não o suficiente. De acordo com análises feitas pelo site ‘Women’s Media Center’, das dezenove categorias vigentes não relacionadas à atuação, o percentual geral das mulheres nomeadas para essas categorias aumentou apenas cinco pontos percentuais, de 25% de 2019 para 30% em 2020, comparado a 70% de indicações masculinas. De 186 indicados, apenas 56 são mulheres e 130 são homens.

Apesar do cenário ter sido impulsionado em 2019 por uma presença mais ativa das mulheres na indústria cinematográfica, na qual elas escreveram e dirigiram mais filmes lucrativos e aclamados pela crítica, além de terem conquistado papéis importantes por trás das câmeras; essa mudança não refletiu nas indicações ao Oscar, como muito bem lembrado pela atriz e ativista Natalie Portman, que durante a premiação vestiu uma capa bordada com os nomes de mulheres que deveriam ter sido nomeadas ao prêmio de direção ao Oscar. Até mesmo Chris Rock e Steve Martin que foram os apresentadores iniciais da premiação deste ano, sinalizaram que a Academia esqueceu de incluir ‘vaginas’ nas indicações.

O que o legado branco patriarcal se esforça para não entender é que não adianta incluir minorias para participar da maior premiação da indústria cinematográfica apenas para subir ao palco a fim de apresentar ou entregar algum prêmio, ao invés de serem reconhecidas e premiadas igualmente.

A corrida é sempre desigual e desgastante e por isso a falta de reconhecimento é revoltante. Imagine estar sempre por último e ter que correr o triplo para alcançar os demais competidores e ainda assim perder o lugar no pódio. Mulheres tem trabalhado mais do que nunca, mas ainda assim não são reconhecidas.

Além do Oscar, o Globo de Ouro de 2020, também foi incapaz de nomear mulheres na categoria de Melhor Direção. Em 92 edições do Oscar, apenas Kathryn Bigelow arrancou o prêmio da mão de homens pela direção do filme ‘Guerra ao Terror’, em 2010. Até a presente data, apenas cinco mulheres foram nomeadas a categoria de direção.

Quando rebobinamos a fita da história, infelizmente nos damos conta de que este dado não é algo recente em Hollywood. Apenas uma mulher ganhou a categoria de Melhor Direção no Oscar e no Globo de Ouro. A inabilidade de quebrar deste padrão ultrapassado consiste não apenas na falta de oportunidade, mas mais ainda na falta de reconhecimento de mulheres cineastas na indústria. Nomes como Greta Gerwig (Little Women), Lulu Wang (Farewell), Lorene Scafaria (Hustlers), Marielle Heller (A Beautiful Day In The Neighborhood), Melina Matsoukas (Queen & Slim), Kasi Lemmons (Harriet), Céline Sciamma (Portrait of a Lady on Fire), Alma Har’el (Honey Boy), Mati Diop (Atlantique), não são reconhecidos pela maioria, porque a indústria não quer que sejam. Não é segredo que a potencialidade feminina assuste e muito a masculinidade frágil daqueles que se mantém por anos à frente das decisões.

Reconhecer o trabalho e nomes de mulheres que continuam a ser constantemente ignoradas é papel de todos. Quando aceitamos a imposição de um sistema que se nega a abrir espaço, já perdemos a luta. Histórias nos movem através dos tempos e nos levam a destinos e percepções que não conhecemos, mas essas narrativas se tornam fracas e rasas quando vistas somente sob o olhar masculino. Somos diferentes versões de realidade não conhecidas ou mal exploradas, porque então fechar os olhos para a diversidade que somos? Identificação importa. Não somos todos feitos de padrões estéticos perfeitos, da pele branca, sedosa e sempre maquiada com o cabelo que acabou de sair do salão de beleza, as unhas feitas e o discurso feminino empoderador barato, mas que não é real.

Querem que nos alimentemos de uma realidade fake que tenta soar como real o tempo todo. Mas o que nós temos feito para reverter este olhar sobre o trabalho de mulheres nas categorias técnicas? O que temos feito para contribuir para este consumo? Parte da culpa também pode ser destinada a quem consome. Quantos filmes, documentários, séries produzidas ou dirigidas por mulheres você conhece? Se conhece menos que o trabalho de homens, é sinal de que você também está em falta com as mulheres deste mercado.

Criar personagens femininas cheios de estereótipos que envolvam fragilidades, insensatez, ciúmes, futilidade, com comportamentos neuróticos, chatos ou entediantes; é fácil. Quem não se lembra da personagem Skyler White, de Breaking Bad? Já pararam pra analisar como as figuras femininas da série são extremamente chatas se comparadas aos personagens masculinos? Por isso que personagens como a Capitã Marvel são necessárias na atualidade, e quando digo Capitã Marvel não falo de super-heroínas, falo sobre identidade própria, independência, força, voz, atitude. Não por menos que todo o protagonismo de Brie Larson incomodou e muito a maioria do público masculino, não pela narrativa, mas porque em muito tempo eles não se sentiram representados e se sentiram diminuídos perante o protagonismo que nunca souberam dividir.

Para mudar a representação que temos na sétima arte é preciso aceitar mais do que atrizes em um projeto da indústria, é preciso analisar o quê ou quem elas representam e quem está por trás do comando desta história. É preciso divulgar, falar, abraçar as causas, os personagens e as narrativas de mulheres, assim como aprendemos desde cedo a vangloriar o trabalho de homens. Quantos filmes você assistiu feito por mulheres este ano? Quantas séries? Quantos documentários? Agora é com você.

Marcella Montanari

| Jornalista e Especialista em Branded Content

| Fundadora e Editora do blog Raprosando

| Uma nerd apaixonada por conteúdo e cultura pop

Deixe uma resposta